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Anne

Anne_By_janine

Ouça com atenção, criança.

Algumas coisas no universo são tão imutáveis como o infinito. Anne é uma dessas coisas.

Embora você não tenha ouvido falar dela, pelo menos com esse nome, ela sempre esteve ali, aqui e acolá.

Quando não existia vida, não existia nada, apenas uma folha em branco, Anne foi desenhada primeira. Ela já foi conhecida como várias coisas: Deusas, Deuses, entidades e símbolos. Mas, em essência, ela sempre foi a Anne de sempre, brincado e voando com seu guarda chuva. Alias este guarda chuva merece um parágrafo só para ele.

Enquanto muitos tinham tridentes, cruzes, raios, Anne quis ter um guarda chuva. Guardas chuva são sempre os mais úteis, pois além de protegerem da chuva, servem de bengala. Além do que, são mais fáceis de usar para voar do que varinhas e machucam mais que espadas. Palavras dela mesma, eu juro.

Anne guarda a imaginação no geral. Basicamente se você imagina uma história ou um personagem, ele vive lá onde ela governa. Você já deve ter conhecido o reino dela como País das Maravilhas, Oz, ou algo que o valha. Ela apenas chama tudo aquilo de Arte e Bagunça. Na Arte e Bagunça só vive quem e o que ela quiser e embora todo mundo no universo pense e imagine, lá sempre tem lugar pra mais alguém, ou alguma coisa.

Não que entrar lá seja fácil, pelo contrário, há apenas cinco jeitos de se chegar.

Você pode subir a montanha mais alta do mundo e pedir permissão aos silfos; nadar até o fundo do oceano, onde o Sol não bate e a escuridão domina e passar pelas ninfas que brilham; ir ao lugar mais quente do planeta e passar no teste das salamandras; agachar em alguma árvore antiga e velha e barganhar com algum anão ou o ultimo método, pedir a chave para Anne.

Nenhum desses métodos é fácil, e alguns são bem injustos(Sim, anões, estamos falando de vocês. Sempre querendo lucrar e lucrar mais.), e o mais simples é pedir a chave a Anne, mas ela só vai te dar se você tiver vontade e imaginação o suficiente.

Como ter tanta vontade e imaginação o suficiente, você me pergunta? E eu lhe respondo o seguinte: usando seu coração. Sim, minha criança, não é a toa que Anne tem um coração vermelho bordado em sua roupa toda preto e branco. Já disseram muitos e aqui eu repito, que o amor é a chave.

Embora Anne seja amável nem sempre seu reino o é. Por isso, aqui vai um conselho: jamais vá a Arte e Bagunça desacompanhado ou despreparado, ou você talvez você nunca mais saia de lá. Há algumas regras que não podem ser quebradas e embora você não vá tentar quebrar elas sempre vai ter um espertinho para te passar a perna. Portanto, atenção constante. Se você, minha criança, for vitima de alguma injustiça, não se acanhe e chame por Anne. Peça por um julgamento, pois ela é sempre justa. Se você tiver do lado certo, claro.

Agora que você já sabe quem é Anne sorria e tente voar; ame e se deixe levar, pois não é apenas com essas palavras que você vai conhecê-la, mas apenas com seu coração.

Texto meu inspirado pelo desenho da Janine. Leiam pra suas crianças, seja ela a que está perto de você ou a que está dentro de você.

Tribunal

O ar parecia pesado, dificil de se respirar. O tempo passava devagar, segundos pareciam horas. Ele tinha um sério cacoete de passar as mãos no cabelo enquanto estava nervoso, por isso o penteado tão bem feito de manhã já estava todo desfigurado. Os atomos do corpo dele exalavam a tensão.

Há muito tempo esperava aquele momento. Depois de anos de investigação finalmente ia triunfar. O maior criminoso da história ia virar um merda naquele dia, ia para trás das grades e tudo por sua causa. Ele só precisava manter a testemunha viva. A testemunha era o braço direito do mafioso e o unico meio de botá-lo atrás das grades. O único.

Tommaso Brutus era amigo de infância do “rei do crime”, sempre brincavam juntos e coisas do tipo. Quando o Rei começou a ganhar notoriedade na cidade e começou a crescer levou Tommaso junto. Tommaso nunca trairia seu amigo, que lhe dava todo tipo de regalias e confortos. Não trairia pelo menos no inicio. Tommaso acabou por descobrir que o Rei tinha um caso com a sua esposa e foi peitá-lo, tirar satisfações. O Rei tirou tudo o que ele tinha, então Tommaso jurou vendetta. Uma vendetta não de morte, mas de sofrimento encarcerado.

O detetive conseguiu proteger Tommaso durante 5 dias, só mais algumas horas e tudo daria certo. Nesses 5 dias ninguem havia tentando matar Tommaso, então o detetive tinha certeza que o Rei iria tentar algo hoje.

Tommaso e o detetive estavam sentados na sala, sentindo o peso da situação a sua volta. 8 e meia, o detetive levanta. Tommaso o acompanha. É a parte final da operação Crucifixo, onde o detetive e sua equipe irão levar a testemunha ao tribunal. Às 8 e 35 todos estão dentro do carro, com a sirene ligada e andando no máximo de velocidade em direção ao tribunal.

Eles viram uma esquina, e o tempo de virar é uma eternidade. Dois homens se encontram de casaco na calçada, eles empunham as armas. Ao passar os homens eles veêm que são apenas dois transeuntes. A paranoia começa a tomar conta deles. Todo mundo na rua é um possivel assassino.

O motorista alterna entra andar rápido e devagar. Não queria que acontecesse o que aconteceu com o juiz há uns anos atrás, que enquanto ia ao aeroporto bateu numa parede de asfalto, que se formou quando o marginal estorou as dinamites antes do carro passar.

As cabeças giram de um lado para o outro a procura do potencial suspeito de cometer o atentado. Tommaso reza a Nossa Senhora a viagem inteira.

Chegam ao tribunal depois de 20 minutos. 20 minutos que pareceram 20 séculos. Descem do carro, olham para os lados e correm para dentro do tribunal.

São 9 e 15, Tommaso começa o seu depoimento.

O detetive respira aliviado, tudo deu certo, graças a Deus.

São 9 e 16, um homem entra correndo no tribunal, abre o casaco e mostra uma tonelada de dinamite amarrada ao peito.

São 9 e 17, tudo não passa de fogo, escombros, fumaça e cinzas.

O Rei observa tudo do seu quarto. Pega um livro na cabeceira da cama e dá um beijo no rosto de Maquiavel.

Refratário

O doce me vez girar e girar, quando me dei conta estava no famoso mundo das mil cores. Tudo era vivo e colorido, uma simplas folha, com seu verde fluorescente, marcava sua forma na retina do meu olho. Os rios subiam e desciam literalmente, com suas águas da cor do arco íris. Rolei na grama durante horas, sentindo o cheiro de vida que subia dos pedaços que eu amassava enquanto rolava. Avistei uma árvore gigante, carregada com todos tipos de frutos, embora um unico em cima dela me chamasse a atenção. Era redondo e brilhava muito, como um pequeno Sol que dá em árvores. Corri para a grande árvore para pegar a fruta e ao chegar as raízes anciãs decidi ir voando, e não ir subindo de galho em galho. A cada metro que subia deslizando no ar, meu coração acelerava e eu ficava mais ansioso. O vento batia cada vez mais forte e quando começou a ficar frio cheguei no topo da árvore. Encarei o fruto no que me pareceram horas. O que cria e destrói estava ali, na minha frente. Comi e explodi como uma estrela em supernova. Minhas particulas voaram para todos os lados mas, quando as chamei de volta, elas se juntaram novamente. Quando agrupadas novamente meu corpo não era mais ossos e músculos, mas sim energia pura. Eu era o Sol. Me senti mais rápido, mais forte, mais inteligente. Olhei para o céu e fui em direção ao meu igual. Chegando lá vi que ele também era um homem, entendi tudo, e sorri.

Cappuccino em Sainte-Agnès

Fazia frio em Sainte-Agnès naquele noite. A neblina envolvia todas as casas de pedra da região. Eu andava pelas ruas a esmo, tentado botar os pensamentos em ordem. Nos primeiros 14 minutos o frio não me incomodava, mas depois desse tempo, mesmo eu usando o casaco, o frio me afetava. Minha boca tremia levemente.

Apertei o casaco mais pra perto do corpo e lembrei que meus pais o tinham comprado pra mim, quando fali a eles que viria morar na França. Eles, como todo mundo, achavam que a França era só Paris, torre Eiffel e etc. Quando falei o nome Sainte-Agnès ficaram logo confusos, mas como era eu que ia, e não eles, o nome da comuna não importava.

Passei em frente a um café, entrei e me sentei. Meu corpo deu graças por eu ter entrado num lugar mais quente. Pedi um cappuccino e enquanto esperava fiquei fitando a janela. A neblina estava diminuindo. O cappuccino chegou e eu voltei a pensar no que estava me incomodando naquela noite. O cappuccino me fazia pensar melhor.

Eu sou tudo que você precisa

Eu sou tudo que você precisa, era só isso que ele ia dizer a ela quando a visse. Estava pensando isso desde que a tinha visto pela primeira vez. Fazia poucas semanas, ele tinha ido numa festa e a viu num vestido branco simples. Encantou-se no primeiro sorriso que ela deu. Na mesma festa ficaram juntos pela primeira vez, os corpos se fundindo em perfeita sincronia. Tinham futuro, muito por sinal, mas o destino parece pensar estranho algumas vezes. Ela tinha namorado, e embora depois da festa eles tivessem se falado por telefone e tudo o mais, ele não via alguma saída de como ficar com ela, embora o dano estivesse feito, e ele estivesse apaixonado. E ela também.

Pensou durante semanas no que ia falar para ela, mas optou por falar pouco, e botou toda a sua esperança naquela frase. Ele ligou e marcou um encontro. Disse que tinha algo importante para falar com ela.

Na data marcada, um sábado nublado, ele chegou meia hora antes no local que iam se encontrar. Mascou um pacote inteiro de Trident nessa meia hora. Ele a viu chegar e seu coração acelerou, além de sentir aquele frio na barriga, aquela tensão de que algo vai acontecer. Sua respiração saia tremida e, embora não soubesse no que tudo aquilo ia resultar, podia ouvir os trompetes da esperança tocando ao fundo.

Confiança, ele pensava, confiança.

Cumprimentaram-se e ele sentiu que ela estava igualmente nervosa. E após os beijos na bochecha e os oi’s habituais ele falou logo de uma vez a frase que estava querendo sair da sua boca a semana inteira.

“Eu sou tudo o que você precisa”, ele disse.

Ela demorou 6 segundos para responder. Esses 6 segundos pareceram a eternidade. Nesses 6 segundos ele sentia o coração bater tão forte, que fazia o seu corpo inteiro tremer. Sentiu-se enjoado durante aqueles seis segundos, além do ar faltar dos seus pulmões naquele momento.

“Eu sei”, ela disse, com um sorriso no rosto e uma lágrima de felicidade que descia solitária sobre sua face.

Beijaram-se embaixo de um raio de Sol, que por algum motivo tinha furado as nuvens e resolvido aparecer ali.

Quem dera a vida fosse fácil que nem um pequeno conto de amor.

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