Bodhisattva

Ouvir, contemplar e meditar.

No silêncio da mata as folhas vibram com as gotas da chuva que cai do céu. Trovões cortam a abóbada celeste. Tupã, Yansã, Zeus, não importa, algum deles está tendo muito trabalho essa noite. O brilho da lua não passa pelas grandes nuvens negras.

Há três anos atrás, o garoto entrou na floresta em busca de silência. Desde os seus 15 anos ele sentava no quintal de casa e meditava por horas. Criou fama pelo povoado. As pessoas vinham do mundo inteiro para ver e tentar entender aquele garoto sentado. Seria um Buddha, um Messias, um Apolo?

A bagunça criada pelas pessoa fez o garto entrar na floresta. Agora, com seus 18 anos, ele atinge a voz do silêncio embaixo da árvore, enquanto o temporal continua a cair do céu. Regozija-se nas águas escondidas da mente humana. De súbito o espírito santo sobe pelo seu corpo. Kundalini é ativado. Após esse anos, virou um Bodhisattva, virou um iluminado. Virou um Deus.

Levanta do chão com calma, abre os olhos, olha pra cima, e sente a chuva escorrer pelo corpo. Sabe que agora vai começar o caminho de volta. É hora de contar ao mundo o que aprendeu, é  hora de voltar.

 

Anne

Anne_By_janine

Ouça com atenção, criança.

Algumas coisas no universo são tão imutáveis como o infinito. Anne é uma dessas coisas.

Embora você não tenha ouvido falar dela, pelo menos com esse nome, ela sempre esteve ali, aqui e acolá.

Quando não existia vida, não existia nada, apenas uma folha em branco, Anne foi desenhada primeira. Ela já foi conhecida como várias coisas: Deusas, Deuses, entidades e símbolos. Mas, em essência, ela sempre foi a Anne de sempre, brincado e voando com seu guarda chuva. Alias este guarda chuva merece um parágrafo só para ele.

Enquanto muitos tinham tridentes, cruzes, raios, Anne quis ter um guarda chuva. Guardas chuva são sempre os mais úteis, pois além de protegerem da chuva, servem de bengala. Além do que, são mais fáceis de usar para voar do que varinhas e machucam mais que espadas. Palavras dela mesma, eu juro.

Anne guarda a imaginação no geral. Basicamente se você imagina uma história ou um personagem, ele vive lá onde ela governa. Você já deve ter conhecido o reino dela como País das Maravilhas, Oz, ou algo que o valha. Ela apenas chama tudo aquilo de Arte e Bagunça. Na Arte e Bagunça só vive quem e o que ela quiser e embora todo mundo no universo pense e imagine, lá sempre tem lugar pra mais alguém, ou alguma coisa.

Não que entrar lá seja fácil, pelo contrário, há apenas cinco jeitos de se chegar.

Você pode subir a montanha mais alta do mundo e pedir permissão aos silfos; nadar até o fundo do oceano, onde o Sol não bate e a escuridão domina e passar pelas ninfas que brilham; ir ao lugar mais quente do planeta e passar no teste das salamandras; agachar em alguma árvore antiga e velha e barganhar com algum anão ou o ultimo método, pedir a chave para Anne.

Nenhum desses métodos é fácil, e alguns são bem injustos(Sim, anões, estamos falando de vocês. Sempre querendo lucrar e lucrar mais.), e o mais simples é pedir a chave a Anne, mas ela só vai te dar se você tiver vontade e imaginação o suficiente.

Como ter tanta vontade e imaginação o suficiente, você me pergunta? E eu lhe respondo o seguinte: usando seu coração. Sim, minha criança, não é a toa que Anne tem um coração vermelho bordado em sua roupa toda preto e branco. Já disseram muitos e aqui eu repito, que o amor é a chave.

Embora Anne seja amável nem sempre seu reino o é. Por isso, aqui vai um conselho: jamais vá a Arte e Bagunça desacompanhado ou despreparado, ou você talvez você nunca mais saia de lá. Há algumas regras que não podem ser quebradas e embora você não vá tentar quebrar elas sempre vai ter um espertinho para te passar a perna. Portanto, atenção constante. Se você, minha criança, for vitima de alguma injustiça, não se acanhe e chame por Anne. Peça por um julgamento, pois ela é sempre justa. Se você tiver do lado certo, claro.

Agora que você já sabe quem é Anne sorria e tente voar; ame e se deixe levar, pois não é apenas com essas palavras que você vai conhecê-la, mas apenas com seu coração.

Texto meu inspirado pelo desenho da Janine. Leiam pra suas crianças, seja ela a que está perto de você ou a que está dentro de você.

Tribunal

O ar parecia pesado, dificil de se respirar. O tempo passava devagar, segundos pareciam horas. Ele tinha um sério cacoete de passar as mãos no cabelo enquanto estava nervoso, por isso o penteado tão bem feito de manhã já estava todo desfigurado. Os atomos do corpo dele exalavam a tensão.

Há muito tempo esperava aquele momento. Depois de anos de investigação finalmente ia triunfar. O maior criminoso da história ia virar um merda naquele dia, ia para trás das grades e tudo por sua causa. Ele só precisava manter a testemunha viva. A testemunha era o braço direito do mafioso e o unico meio de botá-lo atrás das grades. O único.

Tommaso Brutus era amigo de infância do “rei do crime”, sempre brincavam juntos e coisas do tipo. Quando o Rei começou a ganhar notoriedade na cidade e começou a crescer levou Tommaso junto. Tommaso nunca trairia seu amigo, que lhe dava todo tipo de regalias e confortos. Não trairia pelo menos no inicio. Tommaso acabou por descobrir que o Rei tinha um caso com a sua esposa e foi peitá-lo, tirar satisfações. O Rei tirou tudo o que ele tinha, então Tommaso jurou vendetta. Uma vendetta não de morte, mas de sofrimento encarcerado.

O detetive conseguiu proteger Tommaso durante 5 dias, só mais algumas horas e tudo daria certo. Nesses 5 dias ninguem havia tentando matar Tommaso, então o detetive tinha certeza que o Rei iria tentar algo hoje.

Tommaso e o detetive estavam sentados na sala, sentindo o peso da situação a sua volta. 8 e meia, o detetive levanta. Tommaso o acompanha. É a parte final da operação Crucifixo, onde o detetive e sua equipe irão levar a testemunha ao tribunal. Às 8 e 35 todos estão dentro do carro, com a sirene ligada e andando no máximo de velocidade em direção ao tribunal.

Eles viram uma esquina, e o tempo de virar é uma eternidade. Dois homens se encontram de casaco na calçada, eles empunham as armas. Ao passar os homens eles veêm que são apenas dois transeuntes. A paranoia começa a tomar conta deles. Todo mundo na rua é um possivel assassino.

O motorista alterna entra andar rápido e devagar. Não queria que acontecesse o que aconteceu com o juiz há uns anos atrás, que enquanto ia ao aeroporto bateu numa parede de asfalto, que se formou quando o marginal estorou as dinamites antes do carro passar.

As cabeças giram de um lado para o outro a procura do potencial suspeito de cometer o atentado. Tommaso reza a Nossa Senhora a viagem inteira.

Chegam ao tribunal depois de 20 minutos. 20 minutos que pareceram 20 séculos. Descem do carro, olham para os lados e correm para dentro do tribunal.

São 9 e 15, Tommaso começa o seu depoimento.

O detetive respira aliviado, tudo deu certo, graças a Deus.

São 9 e 16, um homem entra correndo no tribunal, abre o casaco e mostra uma tonelada de dinamite amarrada ao peito.

São 9 e 17, tudo não passa de fogo, escombros, fumaça e cinzas.

O Rei observa tudo do seu quarto. Pega um livro na cabeceira da cama e dá um beijo no rosto de Maquiavel.

Refratário

O doce me vez girar e girar, quando me dei conta estava no famoso mundo das mil cores. Tudo era vivo e colorido, uma simplas folha, com seu verde fluorescente, marcava sua forma na retina do meu olho. Os rios subiam e desciam literalmente, com suas águas da cor do arco íris. Rolei na grama durante horas, sentindo o cheiro de vida que subia dos pedaços que eu amassava enquanto rolava. Avistei uma árvore gigante, carregada com todos tipos de frutos, embora um unico em cima dela me chamasse a atenção. Era redondo e brilhava muito, como um pequeno Sol que dá em árvores. Corri para a grande árvore para pegar a fruta e ao chegar as raízes anciãs decidi ir voando, e não ir subindo de galho em galho. A cada metro que subia deslizando no ar, meu coração acelerava e eu ficava mais ansioso. O vento batia cada vez mais forte e quando começou a ficar frio cheguei no topo da árvore. Encarei o fruto no que me pareceram horas. O que cria e destrói estava ali, na minha frente. Comi e explodi como uma estrela em supernova. Minhas particulas voaram para todos os lados mas, quando as chamei de volta, elas se juntaram novamente. Quando agrupadas novamente meu corpo não era mais ossos e músculos, mas sim energia pura. Eu era o Sol. Me senti mais rápido, mais forte, mais inteligente. Olhei para o céu e fui em direção ao meu igual. Chegando lá vi que ele também era um homem, entendi tudo, e sorri.

Ampulheta

Eu quero que o tempo pare. Agora.

Muita coisa passa, muita coisa voa e pouco tempo eu tenho pra fazer tudo.

Hoje, me olhando no espelho vi um fio de cabelo branco. E pensar que até pouco tempo atrás eu olhava para o mesmo espelho na ponta dos pés, porque não o alcançava.

Quando eu era criança muita gente falava para eu aproveitar aquela época porque ela não volta mais. Hoje em dia falo o mesmo para as crianças.

O futuro que eu olhava e queria que chegasse logo, agora passou por mim e virou pretérito.

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